sábado, 23 de agosto de 2008

A honra dos mortos

Os que me conhecem sabem que sou uma pessoa sem papas na língua, sem meias palavras e com um nível de sinceridade que beira a grosseria. Hoje eu não iria escrever pois cheguei de plantão pela manhã e emendei no serviço da casa e nos meus bordados, mas à cinco minutos atrás assisti no jornal da Record a mãe do policial que foi assassinado no morro do Chapadão dizer que o filho não foi enterrado com sua farda e que não recebeu o ato de serviço, ora bolas, se morrer trabalhando não é ato de serviço então eu sou uma rematada idiota que não sabe o que é ato de serviço. Chutar cachorro morto é mole, denegrir a imagem do policial depois que ele se foi e largar a família na miséria é a pior das covardias que alguém pode cometer. Se esses policiais estavam em um DPO ou PPC (seja lá o que for), dentro de uma favela, só os dois, expostos, cercados por mais de cem traficantes armados até os dentes, garanto que não era por vontade própria e tenho certeza que a recusa em assumir tal posto seria severamente punida. Me parece que a frase "punam-se exemplarmente os culpados" está tendo um significado um pouco mais extenso do que deveria, do tipo: "puna-se o cara de qualquer jeito, se ele morrer, puna a família". Deixar de receber o ato de serviço quando de serviço é a maior das contradições que já ouvi. A cada dia que passa mais sinto que a PMERJ pouco se importa com os seus homens e menos ainda com as famílias desses homens. Vocês sabiam que sem o ato de serviço a família deixa de receber o seguro? Não que numa hora como essa alguém vá pensar em dinheiro, mas daqui a algum tempo, quando o cinto começar a apertar e as necessidades começarem a aparecer, caso ela não tenha uma família que possa ajudar, será mais uma viúva que, junto com seus filhos, estará na porta do batalhão aguardando a ajuda dos reais amigos de seu marido. Acho que a subserviência excessiva que esse governo vem submetendo os que comandam a Polícia Militar é degradante, fiquei indignada ao ver no rosto do comandante do 9º BPM, Cel Batalha, na entrevista dada sobre a averiguação a que está sendo submetido o PM morto, que nem ele podia crer no que estava acontecendo, no que o Secretário de Segurança está fazendo com essa família. O nome que dou a esse tipo de atitude é "sacanagem", meu marido que me perdoe, ele detesta que eu use esses termos, diz que sou muito inteligente para deixar-me macular por termos chulos, mas só termos chulos descrevem atitudes chulas. Que me perdoem àqueles que tanto se orgulham e se cobrem de honras ao pensar que ao morrer terão honras militares e salvas de tiros, sempre falei para o meu marido que homenagens são realmente muito belas quando feitas com sinceridade e pureza d'alma, sem essas qualidades as homenagens não passam de fachadas hipócritas, usadas por homens egocêntricos para iludir o populacho crédulo e esse tipo de mentira e adulação eu dispenso. Não gosto de pensar que meu marido possa partir antes de realizarmos nossos sonhos, sonhos que estamos guardando para depois de nossas aposentadorias, mas se for a vontade de Deus que ele se vá antes disso e envergando o uniforme de policial militar do qual ele tanto se orgulha, desejo que os urubus que não o honraram em vida mantenham-se longe de sua despedida pois, com certeza, eu, com a minha falta de papas na língua, sem meias palavras e com minha sinceridade sutil como uma manada de elefantes, os porei à todos de porta afora, principalmente se depois de morto em cumprimento do dever, uns e outros resolvam vilipendiar sobre seu cadáver ou manchar sua honra por ter cumprido as ordens que lhe foram designadas.

6 comentários:

Mallmann disse...

Ola, infelismente nós hoje no Rio de Janeiro só podemos usar palavras chulas como vc mesma expressou para um governo que só faz coisas chulas, estamos caindo a cada dia e assim para "tapar" as inrresponsabilidades de nossos governantes de colocar uns "miseraveis" e "pobres coitados" dentro de uma cabine rodiada de bandidos para fazer policiamento "hostensivo" ou seria melhor repreensivo pois ficar escondido dentro de um ppc com o rabo entre as pernas é reprimir alguma coisa?

Acusar depois de morto é facil dar um salário mais digno e acolher a família nesta hora é bem dificil né governo?

bom infelismente vamos ficando com mais este numero nas estatísticas e enfiando o rabo entre as pernas pq uma andorinha só não faz verão!

Anônimo disse...

Dona Silvia, sou do 9º BPM e não estou aqui defendendo o Coronel não. Só queria q a Sra soubesse que as circustâncias q levaram a morte do citado policial, ocorreu mto estranhamente e q há fortes indícios de que os dois policiais estavam fazendo besteira. Infelizmente a família acaba sofrendo, assim como sofre a família de um bandido.
Não me cabe aqui dizer a Sra, quais são as evidências que tornaram esse acontecimento um fato muito ruim.
Mas, roupa suja se lava em casa e o CEL BATALHA, fez o q podia fazer, calou-se, escutou desaforos em prol da PMERJ, pois se ele contasse o q se passou, ou o q achamos q passou, novamente a PMERJ estaria sendo alvo dos piores comentários possíveis.
Antes da Sra comprar uma briga, analise bem o lado que a Sra tomará partido.
É certo de que houve irregularidades, é mais do q certo e a partir do momento q é irregular, infelizmente a família acaba sofrendo as consequencias de uma pessoa q nao pensou na família nem na PMERJ em determinado momento.
Melhor calar-se do que expor mazelas.
Roupa suja se lava em casa.

Silvia Gomes disse...

Sr. Anônimo do dia 26/08 às 12:37

Com certeza roupa suja se lava em casa, mas se lava! Se os policiais estavam envolvidos em fatos ilícitos e esses fatos eram de conhecimento do BPM porquê eles continuavam lotados no mesmo local, ou pior, porque continuavam na corporação? Se o quê existe é só uma suspeita, onde fica a presunção da inocência? Erros aconteceram neste caso mas, com certeza, não foram cometidos pela viúva nem pelos filhos. O sr como policial militar sabe, melhor do que eu, que dois homens isolados dentro de um PPC ou DPO só tem três opções: ir de encontro às ordens e se recusar a trabalhar no local, render-se ao tráfico e acatar as ordens dadas na "comunidade" ou se pôr contra os traficantes e morrer. Qual seria a sua? Desculpe-me, mas como esposa de policial, praça, me ponho no lugar da viúva, mas com uma pequena diferença, sou guerreira e não dependo da PMERJ, tenho minha profissão e, Deus me livre e guarde, se meu marido falecer de hoje para amanhã, vou continuar minha vida, com muita tristeza e dor, mas vou continuar!

Silvia Gomes disse...

Esqueci um detalhe, em momento nenhum critiquei o comandante, o que disse foi que o governo o deixou na "pista" para segurar o rojão.

Anônimo disse...

Gostaria de parabenizar a atitude inteligentíssima dessa Senhora, esposa de PPMM. Não adianta pedir união dos Praças, pois são a raça mais desunida do mundo. Tem os bandidos, os baba-ovos, os omissos e os inconformados que se dividem em dois grupos: os inteligentes e objetivos e os burros elevados ao cubo. Os militares federais começaram com esse movimento das esposas e que deveriam ser seguidos por nós. A mídia é podre! Ao mesmo tempo que ela faz questão de lembrar os nossos erros, faz questão de esquecer as nossas reivindicações e o nosso sofrimento. 99,9% dos oficiais só querem se promover as custas do sangue, suor e lágrimas dos Praças. A melhoria nunca virá por parte deles, porque pra eles está muito bom. Os poucos Oficiais dignos são marcados e discriminados e dificilmente chegarão ao cargo máximo, pois precisará do "Q.I.". Acordem!!! A solução está conosco e partirá de cada pequeno gesto e ação ao nosso dia-a-dia.

Anônimo disse...

sou pm mas nao no rio a realidade adas policias do brasil sao uma so somos maltratados coagidos vilipendiado, vivemos sob graves ameacas de transferencia punicoes e outras formas de intimidacao por parte de quase 100% dos oficiais que se sentem donos das policias. estes sim sao verdadeiros porcos fardados covardes, espero estar vivo para ver o dia da policia militar deixar de ser militar.